|| Historia || Foi por volta de 1988/89 que comecei a pegar onda com uma prancha de isopor. Depois de um tempo, comprei uma prancha em sociedade com meu irmão, uma Kanvas by Katin larga, grossa e muito pesada. Peguei o toco e fui pra água. Logo nas primeiras ondas já consegui ficar em pé e vi que tinha achado minha identidade com o surf.

O tempo foi passando e comecei a freqüentar o Pier de Mongaguá, onde rolavam ondas melhores e o meu interesse por fabricar pranchas veio junto. Perto da minha casa, na Praia Grande, havia algumas fábricas de pranchas. Optei por uma e mandei fazer minha primeira prancha, nem conseguia dormir de tanta ansiedade. Ia até a fábrica de meia em meia hora, o dona não podia mais ver a minha cara. Nesta fábrica, eles faziam mini pranchas para nfeites. Fiquei alucinado, fiz várias perguntas de como se fazia, me explicaram mais ou menos o sistema, não estavam a fim de ensinar.

Peguei alguns pedaços de poliuretano e fiz meu primeiro protótipo de prancha, pintei com acrílico e passei cola por cima da pintura. Não contente, voltei a fábrica e fiz mais uma lista de perguntas e ficava de olho em tudo que o que acontecia nas salas da fábrica. Arrumei um pouco de resina e uns pedaços de tecido, comprei catalizador e lá ia eu para minha mini prancha, agora completa. Fiz tudo certo, fui mostrar para os caras da fábrica que ficaram espantados, porque a pranchinha tinha ficado alucinante. Depois da primeira, fiz várias e até vendi algumas. Fiquei algum tempo sem trabalho e a situação na minha casa não estava nada fácil. Precisava trabalhar mas não queria parar de surfar e fazer pranchinhas.

Queria fazer uma prancha nova e fui até a Magia Tropical, que na época fazia uma das melhores pranchas da área, mas como a grana estava curta, não consegui trocar a minha prancha. Conheci o shaper da fábrica(Josa Lucas), e falei que voltaria assim que tivesse a grana. Dias depois, um amigo queria fazer uma prancha nova na Magia Tropical e como eu já havia feito uma visita, pediu que o levasse. Depois desse dia, comecei a frequentar mais a fábrica e prestava atenção em tudo, consegui trocar minha prancha por uma melhor e logo fui convidado para trabalhar là. Devagar, fui aprendendo a fazer remendos, depois comecei a laminar e cometi vários erros, mas aprendi rápido e consegui unir o útil ao agradável. O Josa fez um shape irado para mim e eu mesmo laminei, a prancha era mágica!. Trabalhei algum tempo lá, comecei a participar das competições. Não estava conseguindo ganhar muita grana para cobrir os gastos. Tive que arrumar outro emprego e passei a trabalhar com vendas, que não tinha nada a ver comigo, pois sempre gostei de criar, produzir e desenhar. Na época da escola primária, estudava em uma escola que havia alguns concursos de desenho e lembro que ganhei todos.

Trabalhando com vendas até ganhava uma grana, mas não estava satisfeito. Encontrei um amigo que tinha uma fábrica de pranchas, que estava precisando de um laminador. Fiz uma loucura, parei de vender e voltei a laminar. Depois disso, virei um profissional no glass e trabalhei em várias fábricas. Numa brincadeira com outro amigo que tinha uma indústria de fiberglass, fizemos uma prancha. Comprei um bloco, levei para o Natanael Nunes shapear, cobri o shape e dei acabamento. Na verdade, não ficou muito boa, eu sabia laminar mas a parte de acabamento eu nunca tinha feito. Depois da primeira, veio uma encomenda atrás da outra, e comecei a laminar as pranchas com a minha marca (Dhux). Fazia tudo na minha casa, tirava os móveis da sala, forrava o chão com papelão e laminava. A parte de lixa, fazia no quintal, mas vendia pouca prancha e não conseguia cobrir as despesas da casa. Recebi uma proposta de trabalho de um amigo para vender máquinas em São Paulo, mas não queria parar com as pranchas e deixar minha mãe sozinha no Litoral e ele propôs uma sociedade para fabricar pranchas em São Paulo.

Em casa eu só laminava e dava acabamento, os shapes eu pegava de ônibus em ltanhaém, era a maior dificuldade. Nesse tempo, quando entrei na fabricação de pranchas, estudei todas as fases da prancha, inclusive o shape. Fiz contatos com vários shapers e tirei dúvidas na questão funcional e surfei com modelos diferentes. Como não tive escolha, fui para São Paulo, passei a vender as máquinas para fazer chinelos, montamos a fábrica no fundo da casa onde trabalhávamos. Tudo certo, fábrica montada, ferramentas, matéria prima, e finalmente chegou o grande dia do meu primeiro shape, com muito esforco e muito orgulho. Foi mais ou menos em 1997. Mostrei alguns shapes para o Michael Cardoso, ele gostou e comecou a usar as minhas pranchas. Em pouco tempo, ele ganhou vários campeonatos como iniciante e foi campeão do Litoral Sul iniciante e mirim, tudo isso com minhas pranchas.

Fui evoluindo a cada shape, conheci um pessoal da Hang Ten e fizemos uma parecria na Surf Beach Show de 98. Conversei com diversos profissionais, inclusive Ricardo Martins e Cláudio Henneck. Mostrei meu trabalho e eles elogiaram a qualidade pelo pouco tempo de shape, deram-me alguns conselhos. De uns tem- pos pra cá, muita coisa aconteceu, meu amigo e sócio que deu a maior ajuda no começo sofreu um acidente de skate e faleceu. Isso me abalou muito, mas aconteceram muitas coisas boas.

No comeco de 99, já com a fábrica instalada na Praia Grande, o trabalho expandiu muito, vendi pranchas para ótimos surfistas, formei uma equipe de competicão com ótimo nível. Formei também, uma equipe de trabalho com mão de obra qualificada, contando com Tony Diniz(glasser desde 1975, pioneiro na área de laminação), Beto Elizeario e Cláudio Florêncio(sand e acabamento), Joaquim(quilhas e remendos), Carlinhos(ajudante geral) e eu no shape e pintura. Fabricamos em média de 1O a 15 pranchas por semana. Na estrutura que estou, não consigo fabricar mais do que isto, e já está em andamento a nova fábrica da Dhux, para podermos atender melhor e com mais eficiência nas entregas.

Pretendo, depois do verão de 2002, viajar para fora do país para trazer novidades e melhorar cada vez mais o nosso trabalho, ainda sou muito novo. Queria mandar um alô para os fabricantes. Melhor que ficar falando mal uns dos outros, trabalhem e sejam a favor da união de todos, pois estamos no mesmo barco.

Sei que para muitos sou apenas um moleque brincando de fazer pranchas, mas não se esquecam que, do mesmo jeito que acontece nas competições, a nova geracão atropela. Todo mundo tem que aprender com todo mundo, e se os mais experientes souberem educar os mais novos, poderemos ser mais valorizados lá fora e principalmente aqui em nosso país. Precisamos de moral, existem vários shapers com nível altíssimo e pouco valorizados.

Enquanto alguns gringos entram no nosso mercado sem pedir licença e, na maioria das vezes, nem colocam a mão no shape, nós, que ficamos preocupados em fazer boas pranchas para que a galera evolua cada vez mais, não temos nosso trabalho reconhecido!.

Gostaria de agradecer ao Josil Mandacaru (Bennett Foam) pela força que tem dado todo esse tempo, à Guns Shoes e às lojas Overboard pelo apoio como shaper, a minha equipe de traba[ho e à revista Surfboards pela forca e iniciativa. Muita paz, saúde e altas ondas!